Prefácio


Primeiro existia a Luz, e da Luz nasceram os Deuses.


Mas os Deuses sofriam, apesar de que tudo eles possuíam e tudo controlavam. Ansiavam o que estava além deles. Sonhavam em voltar para a Luz.

Um deles, contudo, viu que a Luz era fria e falsa. Então, ao invés de seguir aos outros, fechou os olhos e procurou dentro de si uma resposta. Encontrou apenas a escuridão. E sentiu que também a escuridão era fria. Entretanto, apesar de fria era verdadeira. Foi então que mergulhou em suas trevas.

Os outros Deuses testemunharam esta escuridão nascer e, com medo e preconceito, deram as costas a seu irmão. E continuaram a procurar a Luz. Queriam, mais do que tudo, matar as ideias. Mas ideias não podem ser mortas. Ignoradas sim. E foi o que quase todos fizeram.

No entanto quase todos não são todos. E, para horror da maioria, outros poucos Deuses abandonaram sua busca pela Luz e mergulharam atrás de seu irmão falecido, encontrando dentro de si as mesmas trevas. Dentro dessa escuridão todos adormeceram.

Durante esse torpor, os sonhos negros desses Deuses semearam as terras que não existiam, criando com trevas um mundo de trevas, frio e fogo.

Prólogo

 

Sorbo acordou afogando-se nos mares de sua cama.

 

Às cegas, sua mão trêmula abanava desesperadamente o nada. Procurava alcançar o sino na cabeceira.

Seria agora sua hora de morrer? Perguntou uma voz suave.

Não. Eu quero viver. Sua mão finalmente alcançou o sino, apenas para derrubá-lo ao chão. Não. Eu tenho que viver. Tentou gritar várias vezes, mas o catarro em sua garganta o impedia. Você me prometeu vida.

Alto será o custo. Falou a feminina voz que vinha do nada.

Não encontrando forças para cuspir ou engolir o catarro, Sorbo sufocava. Seu desespero crescia a cada suspiro que lhe faltava. Quando essa agonia se tornou insuportável, começou a rasgar a garganta com as unhas. Ao sentir a umidade de seu sangue, permitiu-se ter esperança. Um pouco mais fundo e ele encontraria vida. Foi então que ouviu o quebrar de suas unhas; sua pele, apesar de ferida e dilacerada, estava longe de ter sido perfurada. Não. Por favor, não. Ajude-me. Por tudo que há de sagrado, me ajude! Eu quero viver.

O silêncio fora sua resposta. Ele estava no limiar; além da dor, da agonia de não poder respirar. Nesse momento que não dura um segundo, quando nos confrontamos com a realidade da promessa. Da morte que esperamos durante toda a nossa vida, que tarda, mas chega, finalmente, ao nosso lado.

Ele não queria morrer, entretanto, seu querer não significava nada. Então tudo que ele foi se fora. Seus sonhos, sua sanidade, sua humanidade. O que sobrou em seu corpo doente, velho e imprestável era um refugo do seu ser. Um animal irracional habitava agora o seu peito, um animal

desumano que sentia apenas um sentimento. Medo. Tinha apenas um propósito – viver!

Quando a escuridão caiu sobre seus olhos, não fugiu do animal. Quando a escuridão chegou, se entregou à fera. Ele se tornara a fera e o medo. Eu me recuso a morrer!

Num espasmo de vontade e força, vomitou e defecou ao mesmo tempo. Coberto pela própria imundície, redescobriu o milagre que era respirar. Sua garganta não estava mais obstruída, cada suspiro que dava, sentia aos poucos as dores voltarem. As antigas e as novas. Um de seus dedos estava quebrado, junto com a maioria de suas unhas. Sua garganta ardia e latejava, mas não importava. A dor agora era bem vinda. Sentir dor significava estar vivo. O que poderia ser mais importante? Nada.

Lágrimas escorreram sobre as bolsas negras de seus olhos, mais cegos a cada dia à medida que o branco maligno da catarata se alastrava. Amanhã poderia acordar cego, ou mesmo não acordar.Hoje, no entanto, ele chorava com a mais pura alegria.

Levou a mão trêmula ao peito. Uma chapa de ouro substituía a parte do tórax que protegia o coração. A pele ao redor do metal era vermelha arroxeada e negra, devido ao avanço da inflamação que já havia putrificado uma pequena parte de seu peito. Quanto tempo?

Ouviu passos. Depois o barulho da porta do quarto se abrindo. Sua guarda pessoal permitiu que entrasse uma pequena legião de médicos e enfermeiras. Apressou-se em enxugar as lágrimas.

Nenhum deles virou a cara, nenhum deles demonstrou a menor reação ao ver Sorbo coberto de sangue, vômito e fezes.

Eu posso ver em seus olhos. Cada dia que amanheço vivo, é um dia de decepção para eles. Todos me olham com horror e

piedade. Todos, menos a minha Clôdia. Minha preciosa Clôdia.

A médica fez um gesto sutil para que quatro enfermeiras despissem Sorbo e trocassem a sua roupa e os lençóis. Então, abriu as cortinas e a luz do sol invadiu o quarto, revelando um aposento vasto e soberbamente decorado.

Era o seu ritual diário de humilhação. Ser limpo e vestido como um bebê de colo. Pensou que com o tempo iria se acostumar com a vergonha. Por que meu orgulho não morre junto com o resto de mim? Para fugir, Sorbo fechava os olhos e voltava aos dias em que era jovem. Lembrava-se dos dias de glória, quando o mundo estava aos seus pés, com ele sentado em sua cadeira senatorial liderando não apenas a sua, mas todas as Linhagens de Caltos. Os olhares naquela época eram de admiração e inveja. Eu também era belo, o mais belo de minha Linhagem.

Caltos era constituída por muitas raças de caninos, cada qual correspondia a uma das grandes Linhagens. Cada uma dessas Linhagens escolhia um líder, macho ou uma fêmea, para representar a beleza e servir de exemplo vivo da perfeição dos seus. O escolhido era chamado  “Paramor”. Sorbo fora um deles.

Seu pêlo, um dia, havia sido um tigrado de vermelho e marrom, com o rosto destacado em negro, tal qual uma elegante máscara, como os demais de sua Linhagem. O peito, imaculadamente branco, como um escudo de fidalguia. As orelhas, cortadas para não atrapalhar nas batalhas. Um signo dos guerreiros. Sorbo fora o orgulho da sua Linhagem. Eu era temido e destemido, e hoje... O que sou hoje?

Aprisionado em seu corpo velho e enfermo, as cores de seu pêlo eram agora apenas de uma tonalidade branca e suja. Seu único consolo era Clôdia. Ele a observava enquanto a médica preparava a pasta cinza que era seu alimento, uma vez que já não conseguia engolir. Nos

últimos dias engasgava até com água. Em seu estômago havia uma sonda para prensar a comida. A fome e a dor eram perpétuas.

Clôdia comandava uma dezena de outros médicos, todos alinhados na parede esperando sua vez de atender a Sorbo. Este processo levava de duas a quatro horas. Todos os dias.

Clôdia era especial: não por liderar os demais. Era especial por ser uma felina num mundo de caninos.

Vinda do distante reino de Tróferos, Sorbo pagara uma fortuna para tê-la ao seu lado.

Clôdia desbridava a pele morta de seu peito, enquanto ele admirava intensamente seu rosto que irradiava paz e conforto. Ela era esbelta, delicada, longilínea e sem curvas. Sua pelagem creme tinha as extremidades lilases. A mesma tonalidade dos olhos.

Já havia atravessado a fronteira dos cinquenta anos, mas a jornada não lhe tinha roubado a feminilidade e nem o sorriso jovial.

– Em Tróferos todas as felinas são lindas como você?

– Infelizmente sim.

– Eu duvido.

– Você está com febre. Eu já falei que é uma tolice passar a noite desacompanhado. Em seu estado, deve ser monitorado dia e noite.

– Minhas noites me pertencem. E os preparativos, como andam?

– Não vou permitir que saia da cama. Se necessário, mando quebrar as paredes para que você possa receber seu convidado aqui.

– E deixar que ele me veja assim? Não seja absurda, Clôdia! Ordens proferidas da cama soarão como súplicas.

– O risco é muito grande, minha consciência...

– Sua consciência? – ele interrompeu. – Não seja ridícula,

você não tem consciência.

O sorriso dela desapareceu. Clôdia respondeu-lhe com um olhar insatisfeito.

– Você é minha preferida, mas esquece o seu lugar.

– Estou aqui para lhe dar conforto e tornar sua convalescença digna, do meu primeiro dia ao seu último.

– Não se iluda, minha bela. Olhe para mim e diga: onde está a dignidade? Meu corpo é um templo de podridão. Tenho pernas, que não suportam meu peso... Minhas mãos seguram apenas a dor da artrite... E este coração que bate em meu peito? Fede como um cadáver ao sol. Meu corpo me promete morte todas as noites. – fez uma pausa antes de prosseguir. – E você, Clôdia, tem outra coisa a me prometer?

– Conforto. Nada mais.

– Eu preciso de mais, muito mais. Eu quero vida!...

– A eternidade está além do que posso oferecer. Imagine sua vida como uma ampulheta. A areia escorrida está para sempre perdida. Tudo que eu prometo hoje é o mesmo que te prometi quando me procurou. Dignidade e conforto nos dias que lhe restam.

– E se ao invés de vida eu quiser morte? E se algum dia eu implorar para morrer? O que você me dirá?

– Não.

Sorbo sorri, com os lábios fechados.

É a minha bela. Por isso a coloco à frente de todos. Se um dia minha vontade falhar, se um dia a dor for demais, você vai continuar me arrastando, até que eu fique louco, ou recobre o juízo. Abençoada seja sua crueldade, minha preciosa.

– Não se preocupe. Ainda me sobram grãos de área. – Sorbo deu uma longa pausa. Depois mudou de assunto. – Meu convidado chegará a qualquer momento. Quero recebê-lo sentado em meu trono.

Algumas horas depois, no salão, Sorbo se mantinha sentado no trono com dificuldade. O peso de suas roupas lhe pesava tal qual uma âncora. Seu corpo fora cuidadosamente coberto com uma longa capa púrpura, com detalhes em ouro, que escondia as pernas e os braços descarnados. As mãos estavam metidas em luvas. O pescoço e a cabeça envolvidos por um elegante capelo, deixavam à mostra apenas o rosto e as pequenas orelhas.

Ao seu lado, Clôdia apontava uma seringa de vidro para a placa aberta em seu peito. O colete desabotoado desnudava o lado direito do tórax. Dentro do vidro, um líquido negro e viscoso se movia como se estivesse vivo.

– Você tem certeza? – a médica quis saber.

Sorbo apenas acenou que sim. A agulha de marfim penetrou o coração. Sentiu o líquido milagroso arder nas veias de todo o corpo. Era uma dor que aliviava as outras.

– Sinto-me vivo... – murmurou, quase sem falta de ar.

– Um risco desnecessário. – ela reclamou, enquanto fechava a tampa de metal e abotoava o colete.

– Que dia meu não é um risco? – indagou. Virou-se para os guardas. – Abram o portão!

As portas duplas do salão eram decoradas com relevos em prata e ouro, com uma cena de batalha entre caninos e primatas. Estes últimos retratados como demônios. Quando se abriram, oito servos entraram carregando uma luxuosa liteira. Deitado nela, esparramava-se um suíno morbidamente obeso. Ocupava todo o amplo espaço com suas camadas de gordura. As pernas sumiam dentro das dobras adiposas; seus braços pareciam simples cotocos. A cabeça pequena destoava do corpo monstruoso exageradamente coberto com jóias. Tantas que cada passo dos servos soava como guizos. Os escravos eram da subespécie dos javalis, musculosos e de aparência feroz.

Todos seminus, usando apenas sandálias e tangas que pareciam fraldas.

– Seja bem vindo! Perdoe-me, eu não sei o seu nome.

– Meu nome não importa, nobre Sorbo, cuja face está estampada na moeda da grande República de Caltos. Perante ti, quem sou eu? Ninguém. Apenas um humilde funcionário, autorizado a representar os interesses do Banco dos Gigantes, em vista de sua persistente solicitação de um novo empréstimo.

– Sua presença me traz grande conforto. Por demais espero uma resposta.

– Meu nobre me convocou e aqui estou. Não seja dito que nossos ouvidos estão surdos aos apelos da Linhagem dos Narácio, entretanto, lamento que minha mensagem sejam ecos das enviadas anteriormente.

O porco sorriu antes de continuar. Seu rosto rosado estava enfeitado com brincos nas orelhas e no nariz achatado. Quinze argolas ao todo, todas de ouro. Ele tinha uma aparência boba e inofensiva. Seus olhos, no entanto contavam outra estória. – A resposta é “não.” – finalizou.

Sorbo fez um sinal com a mão e os servos colocaram a liteira no chão. Agora Sorbo o olharia de cima para baixo.

– Uma viagem longa para uma declaração tão curta.

– Menos poderia ser entendido como um insulto.

– É um insulto.

– Lamento. Não obstante, preservamos o “não” que já lhe fora dado, mas também ofereço junto o desejo de preservar nossos laços de amizade, confiança e respeito.

– Laços imaginários de amizade, confiança e respeito que, para mim, são tão verdadeiros quanto o amor proclamado por uma puta.

– Manteremos, então, nosso amor mútuo ao ouro que pedes a nós. Este amor, sim, é verdadeiro e compartilhado

por todos. Até mesmo pelas meretrizes.

– Ninguém me diz “não”, porco! – Sorbo não alterou o tom da voz. Ela era firme, porém baixa. Ninguém me diz” não”, senão minha Clôdia.

– Talvez então sua audição lhe traia a razão. Pois, por cinco vezes lhe dissemos não, seja através de mensageiros ou papiros.

– Acorrentado no meu calabouço, tendo como único alimento os próprios dedos, eu lhe vejo me dizendo “sim”, cinco mil vezes.

– Certamente, meu nobre. Não obstante, seriam cinco mil súplicas que teria dificuldade em coletar nos cofres do Banco dos Gigantes.

– Talvez uma aula de História seja necessária para que você relembre a Grande Guerra, onde sua raça caiu, juntamente com tantas outras que se puseram em nosso caminho. Olhe no mapa e me diga: quem domina hoje as terras que ontem foram suas?

– Os caninos de Caltos reinam nas terras de muitos. Terras justamente compradas com sangue e guerra.

– E hoje queremos seu ouro. Nada mudou. O mestre ordena, vocês obedecem.

– Meu nobre é generoso. Famoso por suas lições de História e Geografia. Permita-me lhe pagar com uma aula em Sociologia. Tudo mudou, não temos mais terras a serem conquistadas. Igualmente não possuímos povo ou bandeira. No entanto, o Banco dos Gigantes existe em cinco das seis nações, muito além do alcance de apenas uma.

– Seus bancos e seus irmãos que habitam minha nação, estão eles fora do meu alcance?

O porco riu.

– Funcionários e papéis podem ser substituídos.

– E você, porco? Pode você ser substituído?

– Eu não estaria aqui, se não pudesse. Sou apenas um funcionário. Meu tamanho pode ser maravilhoso, mas existem outros ainda mais belos, alguns ainda maiores que eu.

– É verdade que as fêmeas da sua raça são atraídas pela gordura de seus machos?

– Eu sou divino aos olhos dos meus, e não apenas para as fêmeas. Basta um olhar e todos sabem quem é o mais rico e notável. Cada quilo carrega seu valor em prestígio.

“Meu nobre Sorbo, mesmo com todo o seu poder, aos olhos dos meus, você seria considerado um mendigo.”

Sorbo sorri, revelando uma boca com poucos dentes.

– Daqui eu vejo um aleijado. – Sorbo pausou, deixando o insulto se estender no silêncio. - Se eu colocar um copo com água a dez metros e proibir seus servos de ajudá-lo, você morreria de sede, incapaz de andar os poucos passos salvadores. Sua raça sofre de um dilema parecido. Acumulam riquezas que não usam, senão para criar mais riqueza. Ouro comprando ouro, competindo entre si, para ver quem tem a maior pilha de moedas, enquanto tolos os carregam em suas costas. Chegará o dia em que eles não suportarão mais o peso de sua ganância. Abrirão os olhos e verão, finalmente, que são muitos sem nada, servindo poucos que têm tudo. Neste dia hás de entender o valor da minha espada, assim como a mentira e a ilusão dos seus valores.

– Novamente, meu nobre, transborda sua generosidade em forma de conselhos. Tão precioso presente me endivida. Permita-me pagar palavra por palavra, a verdade que seus olhos veem, pela verdade que os meus observam.

– Fique à vontade.

– Diante de mim, vejo um velho moribundo. – a voz do porco era fria e seus olhos desmentiam a aparência inofensiva. Sério, seu rosto era outro, implacável e severo.

– Me diga, seria você capaz de andar os dez passos para beber do metafórico copo com água que salvaria a vida, seja ela minha ou sua?

Sorbo não respondeu. O porco continuou.

– Permita-me então estender a você a verdade do grande Império de Caltos. O mundo que vocês subjugaram com suas espadas, as maravilhas que construíram para celebrar suas vitórias, são hoje escombros do passado. Olhe para si mesmo e veja o que o tempo fez a ambos. Um reino falido, uma República dividida e ineficaz. Suas escolas reescrevem o passado usando o dogma religioso no lugar da verdade. Enquanto isso, para além dos seus muros, o mundo floresce.

Sorbo não disse uma palavra. Seu olhar era uma incógnita para o porco, que se manteve firme em sua retórica.

– Caltos foi um país furioso. – continuou o porco – Digno de temor. O tempo, porém, sempre é um adversário implacável, contra o qual não souberam lutar. Hoje ambos se encontram velhos, débeis e moribundos, revivendo memórias de glórias e poder. Não obstante, meu caro, sua glória e poder se foram como se foram seus dentes. Nada os trarão de volta.

O porco olha sem piedade Sorbo baixar a cabeça.

– Quanto tempo ainda lhe resta Sorbo? Semanas? Dias? Qual o custo de cada um de seus dias? Você esbanjou toda a riqueza de sua família comprando o Sangue Negro – Sorbo levanta a cabeça e se permite um olhar indignado, mas o porco não interrompe o discurso. – Sim, eu sei dos seus gastos. São poucos, no mundo conhecido, que podem adquirir uma gota de tal líquido. O seu ouro, a fortuna de sua família, trocada por alguns litros desse veneno. Diga-me, quantas gotas você ainda tem?

– O suficiente. – Sorbo responde, com olhar gelado.

– Seu filho Gládios nos procurou um pouco antes do seu chamado. Por direito, e me corrija se estiver errado, aquele que senta na cadeira do Senado é o verdadeiro Paramor da Linhagem dos Narácio. Ele me assegurou que a República não aumentará sua enorme dívida. Um acordo para pagá-la está em andamento e será apresentado pelo Doge na próxima Assembléia. Você está acabado. Não desperdice o pouco tempo que lhe sobra alimentando sonhos impossíveis. Venda o que sobrou do Sangue Negro. As crianças de Caltos estão morrendo de fome em seus orfanatos. O custo de um dia de sua vida salvaria centenas de outras. Será que você acredita mesmo que sua vida vale o futuro de sua Linhagem. De suas crianças?

Sorbo olha para o lado. Um de seus guardas se aproxima, carregando uma pequena caixa de prata com o brasão da família em ouro. Sorbo olha novamente para o porco e fala, com um sorriso desdentado.

– Fodam-se as crianças!

O guarda abre a caixa. Dentro dela há uma cabeça canina. Sorbo continua.

– Meu filho, Gládios! – o porco engasga. – Sofreu um acidente de caça. Temos o costume de enterrar nossos mortos, mas mandei o taxidermista preservar sua cabeça para que meu filho pudesse me acompanhar onde quer que eu vá, e lembrar a todos, o valor da lealdade.

– O Senado...

– Eu sou o Senado. – Sorbo interrompe, se levanta, apontando o dedo para o suíno. – E você, seu porco desgraçado, é a minha esposa. Estamos caindo, você diz... Diga-me, então, como vai recuperar suas preciosas moedas de ouro caso isto aconteça? Sim, nossa dívida é um colosso. Justamente por ser absurdamente alta você está acorrentado a mim. Se Caltos cair, o Banco dos Gigantes nos

acompanhará até as profundezas do abismo.

– O Banco dos Gigantes é maior que qualquer nação.

– Porque nós permitimos que ele fosse. Qual o real valor do seu ouro?

– Não se constroem estradas, pontes e castelos trocando animais e hortifrutes. É com ouro que construímos os muros que nos separam dos selvagens ao nosso redor. Civilização é o real valor do ouro.

– Não. O real valor do ouro é a promessa de com ele podermos comprar.

– Será mesmo tamanha sua hipocrisia que permite à sua língua, ao mesmo tempo, implorar por nosso ouro e negar o seu valor?

– Nós dois sabemos a verdade, porco! Não existe ouro suficiente no mundo conhecido que corresponda ao valor de nossa divida. É por isso que seus Bancos guardam apenas papéis com promessas de pagamento.

– Se nosso ouro não existe, qual o propósito em nos pedir mais?

– De que me importa, suíno? Promessas falsas alimentam o coração dos tolos. Se eles querem trocar o fruto de seu trabalho por mentiras, não me faltam mentiras para contar.

– Você é louco.

– Loucos são aqueles que nos deram as promessas com as quais construímos nossa riqueza e nossas legiões. Loucos são aqueles que se puserem em nosso caminho.

– Guerra é suicídio. Será a ruína da sua República!

– Somente se perdermos. E não temos como perder, com as cinco nações trocando suas riquezas pela promessa de seus papéis.

– E se eu disser não?

– Caltos não pagará a sua divida e criará sua própria moeda, deixando claro para todas as outras nações qual é o

real valor do seu ouro.

– E se você morrer, o que será de seus planos?

– Eu não vou morrer. – Nunca. – Agora me dê a resposta. Cinco vezes você me disse “não”. E o que me diz agora?

– Eu não tenho autoridade...

– Eu quero uma resposta, e agora, porco! É agora ou nunca.

O porco faz um sinal. Os servos levantam sua liteira. Observa, demoradamente, a cabeça de Gládios. Finalmente olha para Sorbo.

– Sim.

O porco é escoltado para fora. Sorbo experimentava algo que há muitos anos não sentia: Paz! O coração volta a pulsar forte em seu peito. Por alguns momentos ele se esquece de sentir dor. Eu venci. Vou viver. Viverei para sempre!

Neste instante a dor volta. Como um punhal perfurando seu coração, ela retorna. Olha ao redor e tem a nítida sensação de que tudo deixava de existir. Havia somente a dor. Só ela era real. Sorbo cai no chão, apertando a placa de metal do peito.

Clôdia foi a última coisa que viu quando seu coração parou de bater.

 

O lindo rosto da única pessoa a quem amou.

Capítulo 1

 

Kallissa aprendera a desobediência com o cantar de um pássaro.

 

Ela corria num chão de terra batida, carregando consigo uma gaiola coberta. Ao seu lado, seu irmão Mars tentava acompanhá–la, segurando na cabeça seu chapéu preferido.

– Rápido, antes que eles descubram que escapamos. – ela falou.

Ele bufava e tropeçava. Ela o puxava e o arrastava.

– Não me puxa! – reclamou Mars.

– Então anda.

No céu, duas luas brilhavam com todo o seu esplendor. A lua que cobria a maior parte do celeste se chamava Eru, o Deus do Sofrimento. A Outra, a lua menor que refletia a maior luz, era conhecida como Myr, a Deusa da Verdade.

Juntas elas eram chamadas de “Os Amantes”.

Hoje, Eru estava em ascendência, a esfera negra ocupava um terço do firmamento. Um acontecimento raro, que diziam ser um presságio para calamidades.

Myr estava pequena ao seu lado, mesmo assim, devido à sua superfície clara, quase branca, era ela quem iluminava a noite, brilhando como um farol.

Kallissa e Mars pararam de correr ao alcançar a borda de um vasto precipício.

– Eu falei. Aqui está o túmulo das sombras. Eu disse para você que eu estava certo.

Ela olhou para baixo e avistou o que parecia ser um mar de névoas.

Mars se deitou no chão, tentando recuperar seu fôlego. Inesperadamente, ele começou a rir.

– Que foi? – ela perguntou, ainda olhando para a queda.

– Papai vai te matar!...

– Eu falei para você ficar na barraca.

– Você nunca acharia o caminho sem mim.

– Não seja ridículo. Nós andamos em linha reta.

– Por que eu falei onde era o túmulo. Porque eu falei que para seu precioso pássaro ter uma chance de voar, ele teria que ter uma boa queda. Admita.

Ela já não estava mais prestando atenção ao irmão. Ajoelhou-se e tirou o delicado tecido branco que cobria a gaiola.

– Se você soltá-lo, certamente ele morrerá. Seremos castigados. Não vale à pena. Podemos voltar agora e dizer que foi só um passeio. Ainda dá tempo, Kalli.

– Se você é contra, por que veio comigo?

– Para protegê-la. – respondeu Mars, sem muita convicção. – E também queria ver se você realmente teria coragem.

Ela abriu a gaiola e tirou o pássaro. A ave estava calma e silenciosa; apenas pulou para seu braço sem machucá–la.

O animal era belíssimo. Com penas brancas e azuis. As duas cores mudavam e intercalavam-se, sempre mantendo um padrão simétrico de cores. Cada mutação mais bela que a anterior. Quando se acreditava ser impossível o animal ficar mais belo, um novo padrão emergia. E descobria-se um novo ápice de perfeição.

O pássaro era raríssimo; até pouco tempo era considerado um mito em seu reino, o Reino de Terras Frias, que ela deixara para trás.

Tanto o pássaro quanto a região de onde ele veio, possuíam o mesmo nome – Chatallary. Significava, dentre outras coisas, Rainha do Gelo.

O animal era tido como mágico; nas florestas, crianças

sempre voltavam com estórias de ter visto a tal bela ave. Essas estórias, contudo, eram sempre desmentidas por todos os caçadores do reino, mesmo os mais antigos e renomados, já que em todos os seus anos de procura, jamais sequer colocaram os olhos no animal.

Muitos acreditavam que o pássaro lia o coração de todos, escolhendo, dessa forma, se aproximar daqueles que não lhe desejavam mal. Outros diziam que a lenda alimentava a imaginação das crianças, e que elas viam apenas o que gostariam de ver.

Séculos se passaram, e tão influente fora a lenda que a região que um dia havia sido conhecida como Distrito Treze, tornou-se Chatallary. Existia até mesmo uma caça anual. Tão grande era o evento que cidadãos dos distritos vizinhos vinham participar. A caça era apenas simbólica, uma vez que o animal nunca fora encontrado.

O pássaro no braço de Kallissa foi encontrado num ninho, ainda recém–nascido. Sem nunca ter conhecido os céus, ele fora trancafiado no interior de uma gaiola. Se sua mãe o abandonara ou morrera, ninguém soube dizer. Até hoje, nenhum outro Chatallary adulto jamais fora capturado.

Ela lembrava com tristeza o dia em que o animal havia sido presenteado à sua Linhagem; como sorriu junto com todos os outros, e como bateu palmas para o primeiro canto do cativo animal. Não era música. Ele suplicava por liberdade. Isso acontecera dias antes deles saírem de suas terras, deixando pra trás seu mundo, seus amigos, seu povo.

Foi no caminho, durante a longa jornada, que ela finalmente olhou para Chatallary. Realmente olhou e viu o que todos deveriam ver e ninguém era capaz. Existia um custo que vinha com o encantar de sua música e beleza. Suas asas nunca se abririam para voar. Ele nunca conheceria os

céus. Jamais teria a companhia de uma fêmea. Nunca seria pai. Será que você me odeia? Ela se lembrava das estórias com princesas presas em torres, guardadas por monstros e vilões. Nós somos os monstros e vilões.

O trovejar do trompete a trouxe de volta para aonde estava agora. A um passo de um precipício.

– Eles nos acharam! – alertou Mars, ao se levantar e ir para o lado da irmã.

– Me perdoa. – dirigindo-se ao o pássaro antes de jogá–lo ao precipício.

O pássaro caiu como uma pedra. Sem som, sem bater as asas. Ele mergulhou até ser perdido de vista, no mar de névoas.

– Eu falei que talvez ele não fosse conseguir voar. Eu te falei. – lembrou-lhe Mars.

Voa! Por favor, voa!....

Então ela ouviu o estridente som que lembrava um grito. Não apenas um grito. Eram mil gritos em um só. Foi então que viu o pássaro ascender. Quebrando a névoa, subindo e gritando. Festejando, bracejando. E acima de tudo, voando!

– Sabia que a queda daria certo! Eu te falei, Kalli. Veja!

E com isso, o Chatallary desapareceu no horizonte.

Os dois irmãos se viraram a tempo de vir os cavaleiros se aproximarem. Os irmãos estavam cercados, com um precipício em suas costas e inúmeros cavaleiros à sua frente. O último a chegar foi o único que desmontou. Pesarosamente caminhou na direção dos jovens irmãos até estar perto o suficiente para ver o branco dos seus olhos. Seu nome era Warion.

– Pai, eu não sabia que ela iria soltar o pássaro! Só vim atrás para protegê–la. – falou Mars, afastando-se da irmã.

Warion olhava gravemente para seus dois filhos. E observava a gaiola vazia e jogada ao chão. Mars fingia olhar

para o céu, escapando do olhar do pai. Já Kallissa fitava seu pai. Quero ver você me ignorar agora.

– Isso é verdade? – Warion perguntou.

– Eu abri a gaiola e eu soltei o pássaro. Essa é a verdade. – confessou Kallissa.

– Quando me pediu para libertar o animal, qual foi minha resposta?

– Que ele não era seu para libertá-lo. Que ele pertencia a todos nós, portanto, qualquer um que o liberasse estaria cometendo um crime contra todos nós.

– Está você, como filha do Paramor, acima das leis? Estou eu?

– Não pai. Não estamos acima da lei. Eu sei o custo de meus atos e estou disposta a pagar por eles.

– O custo de seus atos é vergonha para todos nós. Como espera pagar por isso?

– Eu não tenho vergonha do que fiz. Se ele não era de ninguém para ser solto, também não era de ninguém para ser preso.

– Você me desobedeceu. Roubou de todos nós o símbolo de nossa bandeira. O nome de nosso reino. Como espera ser punida por essa traição?

– Se eu sou uma ladra, castigue-me como tal.

– Você sabe qual a punição para roubo?

– Vinte chibatas.

– Dez. – corrigiu Mars. – Primeira incidência são apenas dez.

– Um maldito pássaro, Kalli. E agora, o que espera que eu faça?

Kallissa desabotoou a delicada blusa de seda azul escura, ficando com seus pequenos seios à mostra. Caminhou quatro passos. Ajoelhou-se, dando as costas nuas para seu pai.

– Dez chibatas. – assentiu, com convicção.

– O chicote! – Warion dirige-se ao capitão de sua guarda. Este desce da montaria, e pega um longo chicote negro de couro trançado.

Todos os olhos estão sobre Kallissa e seu pai. Um silêncio solene era quebrado apenas pelo vento que aumentava, criando o som de um leve assobio.

Warion segurava o chicote com tamanha força que suas mãos tremiam.

– Pai, por favor, não faz isso!... – Mars implorava, quase chorando.

Ela ouviu o desenrolar do chicote e o rastejar do couro ao tocar o chão. Fechou os olhos e esperou. Vai pai, eu agüento. Você não tem escolha.

Esperou por tanto tempo que chegou a achar que ele não iria ter coragem, afinal, em toda sua vida, seu pai nunca antes havia levantado a mão para a jovem.

Foi então que ouviu o ar ser rasgado. Sentiu a lambida do couro nas suas costas! Já havia visto soldados sendo disciplinados pelo chicote. Achava que sabia o que esperar, mas olhos são maus julgadores do sofrer alheio. Nunca seriam capazes de nos explicar o verdadeiro significado da dor dos outros. A não ser quando inflicta sobre nós.

Agora que a dor lhe pertencia, ela entendia. Caiu com o rosto no chão, engolindo a terra. Sujando seu rosto. Sentiu sua pele rasgar; experimentou o calor do corte se alastrar onde sua pele fora maculada, até cada uma de suas extremidades. Suas mãos e pés tremiam, seus dentes estalavam com o abrir e fechar involuntário de seu focinho. Levanta, não chora e levanta.

Vagarosamente ela o fez, voltando à mesma posição. Só que desta vez coberta de terra em seu peito e rosto. O sangue escorria, sujando suas costas e pernas.

– Uma. – contou, gelidamente, seu pai.

Ela fechou os olhos. Desta vez trincando seus dentes, e fechando os punhos. Esperava que assim, de algum modo, diminuísse a dor que estava por vir.

A menina ouviu novamente o chicote dançar. Mas subitamente...

– NÃO SE ATREVA! – gritou a voz indignada de uma fêmea.

Warion interrompe o movimento de sua mão e o chicote acerta o nada. Ele olhou para trás. Todos olharam.

– Mãe?! – surpreendeu-se Kallissa, ao ver Alysta, que se aproximava com o semblante sério.

– Edruss, leve sua guarda de volta ao acampamento. – Alysta falou para o capitão da guarda. Este olhou para Warion, pedindo autorização com os olhos.

– AGORA! – gritou Alysta, com tamanha autoridade que duas das montarias deram passos para trás. Sem esperar por mais nada, todos os soldados partiram, deixando os quatro sozinhos à beira do precipício.

Mars correu para os braços da irmã. Abraçaram-se.

Alysta andou até se encontrar a um palmo de seu marido. Os dois se olharam. Ambos contrariados. Ela esperou ele dizer algo. Esperou até que finalmente ela falou primeiro.

– Você enlouqueceu?

Alysta olhou para sua filha suja que cobria sua nudez com as costas do irmão mais novo. Como se ele fosse um escudo. Ambos olhavam apavorados em sua direção. Ela, então, olha para a gaiola ao chão e novamente para seu marido.

– Ela apenas soltou um pássaro! É uma criança... Como ousa...

– Como eu ouso? – agora Warion estava enfurecido. – Como você ousa me questionar na frente de meus soldados?!

– Ela é uma criança!

– Uma criança? Uma criança conhece apenas treze invernos. Nossa filha conheceu dezesseis. Quantos invernos, ainda daremos a ela para brincar?

– Todos. Você me prometeu.

– Eu errei. Hoje meu erro vai ser reparado. Ela sabia o preço de abrir a gaiola. Deve à nossa Linhagem nove chibatadas.

– Você não vai tocar nela.

– Mãe, pára, por favor! Vai embora. Papai está certo, eu quero isso.

Ela empurra delicadamente seu irmão para longe e se ajoelha de costas para todos.

– Sinto muito. Eu não tenho escolha. – Warion falou.

– Eu vou te dar uma escolha, então. – a voz de Alysta era fria. – Toque nela novamente e vai me perder para sempre, junto com nossos filhos.

- Você teria coragem de me abandonar?

- Depois do que você fez, eu vou precisar de coragem para ficar ao seu lado. Afaste-se agora. Faça isso e eu prometo tentar encontrar um modo de perdoar sua covardia.

– Alysta! – Warion olhava para ela em súplica.

– Por sua causa eu perdi Alex. – acusou Alysta.

– Não, não foi minha culpa. – Warion falou, magoado.

– Você me prometeu que eles estariam protegidos.

– Eu não tive escolha.

– Você tem agora sua escolha.

Warion abaixa a cabeça. Larga o chicote ao chão; afasta-se andando, deixando sua montaria para trás.

Alysta se aproxima de sua filha. As duas com lágrimas nos olhos. Kallissa veste a blusa. Quando termina, sua mãe tenta abraçá–la.

– Eu te odeio! – Kallissa se afasta da mãe ainda olhando-a

nos olhos. – Você estragou tudo. Acha mesmo que me salvou? Salvou de quê? Ele nunca vai me perdoar, mãe! Você o humilhou na minha frente, na frente de todos. Meu pai não é um covarde. Acha que ele queria me machucar? Você foi a covarde, usando Alex para atingi-lo. Meu pai não teve culpa e você sabe melhor do que ninguém.

– Ele colocou a espada na mão do meu filho.

– Alex escolheu o caminho dele, assim como eu escolho o meu.

– Eu sei o que você está fazendo. Está procurando um jeito de provar a seu pai que é forte. Tão forte quanto Alex.

– Você estragou tudo.

– Me odeie se quiser, mas uma coisa eu te juro: você não vai trilhar o caminho do seu irmão. Enquanto eu viver, o seu será um mundo de inocência e alegria.

– E se eu não quiser esse mundo?

– Sua felicidade é importante para mim, entretanto, eu prefiro te ver triste a ter você em perigo. Nunca vou deixar nada nem ninguém te machucar. Não enquanto eu viver.

Kallissa dá as costas para a mãe. Caminha até a montaria de seu pai.

– Mas você pode? Você pode me machucar? – ela indaga, olhando para a mãe.

Sem esperar uma resposta, sai, deixando sua mãe e o irmão para trás.

Capítulo 2


Cada chibatada que ele levava doía nela.

- Quatro.

Ela queria voltar no tempo. Fazer com que ele voltasse até à noite anterior.

- Cinco.

Ela também desejava gritar. Dizer que ele não teve culpa, que essa era toda dela. Ele esta pagando pelo meu erro. Não é justo. Todavia, palavras não iriam reparar a honra de sua Linhagem. Apenas sangue.

- Seis.

O sangue escorria pelas costas de Edruss, se escondendo no negro, e pintando de vermelho o branco dos pêlos de suas costas. Estava nu, exceto por uma toga. Era alto e musculoso. Apesar de ser visto por todos como um líder, mal havia feito dezesseis anos.

- Sete.

Todos estavam presentes. Os quarenta cavaleiros, os cinqüenta soldados de infantaria. E os vinte servos.

- Oito. – contava seu pai, ao final de cada lambada.

Edruss sorria. Como ele me lembra Alex. Crê que isso é um jogo. Lembrar do irmão apenas a deixava mais confusa. Não conseguia sequer entender o que estava sentindo. Devia estar enojada, não excitada. Ele é meu primo.

- Nove.

Não haveria a décima, Kalli pensou. Nove ele, uma eu.

Edruss se levantou. Olhou para todos à sua volta, ainda sorrindo.

- Ela escapou sob a minha vigília. Seu crime não existiria sem a minha negligência. Se alguém achar que a justiça não foi feita, dê um passo à frente e coloque suas palavras diante de todos. – ninguém se moveu. – Muito bem, como líder da

guarda e protetor dos herdeiros de nossa Linhagem, eu declaro a dívida paga e a justiça feita!

E com isso, podemos todos fingir que nada aconteceu. Pensou Kalli, vendo todos voltando aos seus deveres. Ficou reflexiva. Olhava a hipocrisia à sua volta, observando os servos desmontarem as barracas e os cavaleiros prepararem suas montarias para mais um dia de viagem.

Seu pai significava o motivo pelo qual todos estavam ali. Eram todos a sua escolta. Os melhores dos melhores de sua terra natal. Cada soldado que caminhava ao seu lado, era um veterano, e já havia passado por muitas guerras.

Todos, sem exceção, morreriam por seu pai. Como Alex. Como eu. Porém, de todos, seu pai era o mais forte, o mais alto, o mais solene. Warion era o Paramor de sua Linhagem.

Em cada linhagem, um Paramor era escolhido para representar e liderar todos os demais. Uma escolha que não era feita apenas por mérito e sim pela aparência de se possuir tal mérito.

Seu irmão mais velho fora um melhor guerreiro, mas, por ser de baixa estatura, não aparentava tal habilidade. E por esta razão, nuca fora considerado um Paramor.

Meu pai não apenas aparenta ser o melhor de todos. Ele sempre foi o melhor. Kallissa pensava nos seus outros três tios. Cada um melhor que seu pai em algum critério: velocidade, força e liderança. Os três pilares de sua linhagem.

Certa vez, ele explicara que a escolha de um Paramor, era como a escolha de uma espada. Uma espada tem que ser, ao mesmo tempo, resistente, equilibrada e afiada. Se um desses atributos lhe faltar, você pode se encontrar num duelo, com uma arma que não corta. Ou uma arma lenta. Ou que se quebra diante de uma espada melhor.

Warion era a espada da Linhagem Hysku. Seu pêlo brandeava o tradicional branco e preto, que eram também as

cores de sua bandeira. Ele representava um ideal, tanto em aparência como em atitude.

Kallissa se aproximou. Ele estava desacompanhado e enrolava seu chicote negro. A jovem havia esperado todo o dia para poder falar a sós com o Paramor, seu pai.

- Pai...

Quando seus olhos se encontraram, a jovem podia sempre ver o que ele nunca dizia. Que sua presença era um incômodo. A filha lembrava dos dias em que encontrava apenas amor nos olhos dele. Dias que ela perdera junto com seu irmão.

- Não há nada a ser dito. – ele decretou, ao dar as costas.

Ela correu e se colocou à sua frente.

- Não me ignore! Se você me odeia, então grite comigo, me xingue, me bata! Qualquer coisa é preferível à sua indiferença. Eu sou sua filha! Como é possível que nunca tenha nada a ser dito entre nós?

Ele fica em silêncio por quase um minuto. Quando finalmente a responde, o faz com uma voz carregada de tristeza.

- Foi por isso que você soltou o pássaro? Para conseguir minha atenção?

- Não... Não sei.

- Eu não a odeio. – falou, se afastando. Desta vez ela o deixou ir.


Em sua pequena barraca, Edruss estava sendo atendido por duas servas. Elas sorriam ao tocar nele. Ontem, ao cuidarem de mim, não estavam tão alegres.

Kallissa dispensa as duas. Elas saíram visivelmente contrariadas. Mesmo assim, não ousaram questionar seu comando.

- Você não tem que me agradecer. – explicou Edruss,

exibindo um sorriso.

Com um pano umedecido ela limpava os cortes do rapaz.

- Eu não vim te agradecer.

Ela colocou três dedos dentro do pote com o bálsamo marrom. Delicadamente, aplicou o remédio nas costas de seu primo.

- Se não veio me agradecer, por que veio?

- Não é obvio?

- Mais do que você imagina.

O que eu estou fazendo aqui?

- Olha para suas costas, as cicatrizes nunca vão sumir.

Edruss se levanta e a encara. Kalli tenta não demonstrar o poder que ele tinha sobre ela. Ao seu redor as coisas desapareciam, enquanto que suas percepções de cada detalhe de seu corpo se acentuavam. O suor, o peito descoberto... Sua altura, o cheiro misturado com o odor do seu sangue.

- Vou carregá-las com orgulho. As cicatrizes.

- Você é um tolo. E fez de mim uma tola igualmente. Não sou uma criança inocente à procura de um herói. Eu sabia o que eu estava fazendo.

- Neste caso, me perdoe.

- Por que você fez isso?

Ele não respondeu. Apenas olhou para ela com uma intensidade tal que a incomodou e a atraiu, ao mesmo tempo.

- Você sabe o porquê.

- Quando o bálsamo secar, poderá se cobrir. - ela falou, ao fugir dele.

 

O acampamento foi desfeito. Todos estavam a caminho. Seu pai liderava à frente, seguido por seus cavaleiros. Mais atrás ia infantaria, os servos e quatro carroças. Todas carregadas de mantimentos, equipamentos, roupas, armas,

remédios e até mesmo animais leiteiros. Também algumas variadas aves, de onde retiravam os ovos.

No centro de tudo isso estava uma gigantesca criatura.

Baddok era o nome dado ao animal. Suas costas achatadas e muito largas eram cobertas por uma crosta similar ao mármore polido. Apesar de andar em cima de oito largas patas, era lento. Sua barriga e cabeça possuíam uma pele lisa e macia.

Nas costas da criatura, fora montada uma barraca de quinze metros de largura por quatro de altura. O interior era luxuoso. Comportava todos os confortos cabíveis em cada metro quadrado. Era basicamente um único aposento, dividido em quatro partes. Uma para cada um deles. Cada compartimento forrado com almofadas que serviam de cama e cadeira. No centro, uma mesa giratória com frutas frescas, sucos, vinhos e diversos cortes de carne.

O andar constante do animal fazia com que a barraca balançasse como um convés de navio. Pelo menos era o que sua mãe lhe dissera. Kallissa nunca entrara em um barco; até essa viagem, ela nunca havia saído de seu reino.

No começo o balanço do animal a deixava enjoada. Com o passar da viagem, o balanço já podia ser comparado ao de um berço, causando-lhe sono.

Deitada e coberta por suas almofadas, Kallissa lamentava cada segundo de sua longa viagem. Não era apenas o tédio de dois meses de estrada. Não era a falta do conforto de seu castelo, tampouco a ansiedade de estar indo para um mundo que desconhecia. O pior de sua viagem fora descobrir que seu pai não a amava. Era claro agora que ele já não a amava. Fazia anos.

Antes, ela podia fingir que ele estava ocupado com a guerra, ocupado com as responsabilidades de Paramor. Foi no caminho, no longo e tedioso caminho que essa verdade

ficara clara. Não havia nada a se fazer, senão marchar e descansar. Ele tinha todo o tempo do mundo para dar a ela. Ele me dá nada.

Entrava na barraca à noite e passava seus dias cavalgando com seus soldados. Ele não tolera minha presença.

Kalissa passou noites pensando no que teria feito para merecer tal tratamento. Quando olhava para ele, ela podia sentir sua reprovação, seu incômodo. E também sabia que o pai tinha algo a lhe dizer. As palavras que poderiam explicar o ódio que ele sentia por ela, explicar o porquê de um pai não conseguir amar a própria filha. Ela temia e ansiava por esse dia, só que ele nunca chegava. Dele, ela só tinha o engasgar do nada. Ele vai me dizer que eu deveria ter morrido no lugar de Alex.

Kalli pensava também em Alex. Em como ela sentia sua falta e de como tudo mudou quando ele se foi. Ela e seu irmão Mars estavam aprendendo a arte da guerra onde, juntamente com lições de combate, eles absorviam as diversas táticas de batalha. Poucos dias depois que Alex morreu, foram proibidos de tocar numa espada. Agora, aprendiam Diplomacia, Economia, e as demais Ciências que foram feitas para nos fazer dormir. A todos, menos a Mars.

Mars era diferente de todos. Nunca olhava ninguém nos olhos. Sempre escondido do mundo atrás de suas pilhas de livros. Se eu não puxar assunto ele pode ficar dias sem falar comigo.

Ela nunca ligara para livros. Ler não era fazer, ela sempre pensou, mas agora daria tudo para ser seu irmão. Ter o poder de escapar para um mundo imaginário. Esquecer o que ela sempre esquecia de esquecer. Todavia, ela não era seu irmão. Ele é mais esperto, é mais belo.

Foi então que notou, pela primeira vez, o quanto ele era parecido com sua mãe. O mesmo pêlo branco neve que os

cobria totalmente. Até mesmo seus olhos eram iguais, de um azul tão claro que parecia ser branco. É por isso que ele sempre usa chapéus, para esconder de todos sua beleza andrógina.

Isso também explicava muito as roupas negras e sombrias que Mars usava. Exageradas, como as dos vilões das peças de teatro.

Sentindo o tecido macio de um cobertor sobre seu corpo, ela sabia que sua mãe estava ao seu lado. Ela está sempre ao meu lado. Queria acordar e falar com ela. Pedir desculpas, mas o balançar e o conforto falaram mais alto.


O trompete a despertou com um susto. O som significava apenas uma coisa.

– Nós chegamos! Nós chegamos! – Mars gritava feliz em suas almofadas, derrubando suas pilhas de livros.

Quanto tempo eu dormi? Não o suficiente; seus olhos abriam com dificuldade e sua mente ainda estava lhe implorando para que voltasse a dormir.

Do lado de fora, ao lado do Domador que guiava o Baddok, ela avistou as quatro torres. Não muito depois, vislumbrou os muros da cidade. Por fim, as casas. Milhares e milhares de casas que se estendiam como um oceano de concreto e madeira, engolindo todo o horizonte à sua frente.

– É maravilhosa!... – ela sussurrou encantada. – Eu não tinha idéia.

– Mais de um milhão de habitantes, isso sem contar com os comedores de terra que rastejam no mundo abaixo. Basília é a maior cidade do mundo conhecido. – explicou o Domador, com orgulho.

– Na verdade, a capital de Tróferos é a maior cidade do mundo conhecido. – esclareceu Mars, tão logo passou por debaixo da cortina. – Me levanta.

Kallissa o pegou e o colocou montado sobre seus ombros.

– Os felinos são polígamos. Isso tem ajudado com sua taxa de natalidade. Enquanto que a nossa é de cinco por cento, a deles está perto dos nove. – concluiu Mars.

– Meu nobre, me perdoe, mas somos e sempre seremos os maiores. Nossa glória é conhecida por todos, assim, meu pai me falou, como o pai de meu pai falou para ele. Todos conhecem essa verdade.

– Verdades mudam. – respondeu Mars.

E com isso, sua mãe os puxou para dentro da barraca. Ela os arrumou com as roupas que estavam num baú dourado que estivera trancado à chave, até aquele dia.

As novas vestimentas eram magníficas, nas cores de sua bandeira, com elaborados bordados separando, com elegância, o branco do preto.

– Por que não posso usar meu chapéu? – reclamou Mars.

– Não combina.

– E daí?

– Olha para mim, nossa linguagem vai ser julgada pelo modo que nos comportamos.

– Mas... – tentou continuar Mars.

– Não tem mais ou menos! Você vai... Vocês vão obedecer e pronto. Entenderam?

Os dois concordam. Tão logo foram vestidos, seus servos removeram as cortinas laterais da barraca, expondo o interior para todos do lado de fora.

Todo o grupo que os acompanhava - soldados e servos -, ficaram para trás. Quando atravessaram a mandíbula, com exceção do Domador que guiava o Baddok, os quatro estavam sozinhos.

A mandíbula era um portão gigantesco. Sua forma lembrava os contornos de um focinho aberto, quase um pequeno túnel, com espetos metálicos enormes. Cada um do tamanho e espessura de um adulto. Antes mesmo que

cruzassem tal portão, ouviram o clamor vindo de dentro da cidade. Os sinos sagrados de Myr também tocavam em sua homenagem.

A multidão que os recebeu era imensa. Espalhavam-se pelos dois lados da rua, tão compactamente espremidos uns aos outros, que não se podia ver a cor do chão. Até onde a vista alcançava se viam braços e cabeças acenando e gritando.

Uma escolta os acompanhava, enquanto que os guardas da cidade se alinhavam, como um muro, contra o entusiasmo do povo. Muitos, os mais alterados, atiravam-se contra seus escudos longos.

Do lado direito da multidão eles foram recebidos com vaias e protestos. Um grupo em particular tinha seus rostos pintados de vermelho e carregavam placas. Cada placa tinha uma mensagem diferente. Uma dizia INFIÉIS DO GELO. Outra, POLÍGAMOS, POLITEÍSTAS E PUTOS. A que mais chamou a atenção de Kalli, era uma com o desenho de sua mãe sendo montada por uma pantera branca. A fera segurava uma faca com sangue, numa das mãos, e um livro na outra.

Logo abaixo três cabeças. A sua própria, a de Mars, e de Alex. Abaixo do desenho estava escrito BASTARDOS DOS "SELVAJENS" DO GELO.

– Eles nos odeiam! – constatou Kallissa, chocada.

– Idiotas, escreveram "selvagens" errado! – escarneceu Mars.

– Ignore–os e acene. Nunca demonstre fraqueza diante de um insulto. – ensinou Warion.

– Vamos para a esquerda, Kalli. Esses aqui estão do nosso lado. – chamou Mars.

De fato, do lado esquerdo da rua, estavam os que protestavam. Os protestantes, gritando mais alto, em maior

número. Lutando com sorrisos contra as caras feias e ranzinzas de seus adversários.

Kallissa observou que a divisão entre os dois lados era maior que apenas uma ideologia. Era uma divisão clara de linhagens. Do lado direito, havia apenas oito linhagens, a maioria descendente dos grandes Houdn. Quase todos velhos e gordos. Já do lado esquerdo existia uma maior diversidade, além de serem mais belos e jovens. Eles representavam, tanto os membros das Linhagens Menores, como os Malhados de Sangue Impuro. Inclusive muitas raças dos Sem Nação. Os perdedores da grande guerra, que ela somente conhecia por livros e aulas de História.

A princípio a multidão a fascinou, porém, depois de horas em pé, o espetáculo começou a perder seu encanto. Passou, então, a admirar a arquitetura da cidade.  Durante todo o caminho, não vira nenhuma casa. Apenas mansões e vilas. Todas altas. A menor delas tinha dois andares, e a maior chegava a mais de quatro. Estátuas de bronze enfeitavam o caminho juntamente com fontes e jardins. Estes, floridos com flores que ela jamais havia visto.

Os muros das vilas eram todos decorados com ladrilhos coloridos em diversas formas. Não existia pobreza, apenas riqueza e opulência.

Quatro horas depois, eles chegaram ao palácio.

Magnífico e imponente, o palácio se estendia diante de um lago artificial.

Ao desceram do Baddok, atravessaram a ponte e alcançaram os portões prateados.

O som de centenas de tambores calou a multidão. Numa bancada, a uma altura de onze metros, o Doge de Caltos atravessou as cortinas da varanda e se mostrou a todos.

O povo clamou. Mesmo assim ouviam-se também vaias e protestos afogados neste clamor. O Doge levantou a mão.

Novamente todos fizeram silêncio.

Ele era alto e magnífico, com o corpo alongado. A cabeça também era longa e estreita, se afinando gradativamente em direção ao nariz. O pêlo liso e sedoso brilhava, dividido em três cores. Vermelho, dourado e branco creme. Estendia-se em abundância em suas orelhas e extremidades.

Quando o Doge começou a falar todos se ajoelharam.

– Cidadãos! Ao final da grande guerra, Caltos prevaleceu, conquistando glória e expandindo nossas fronteiras!

– No ápice dos nossos triunfos, nossa sombra se estendeu por todo o mundo conhecido, onde nossa cultura superior conquistou corações e mentes. Tanto de nossos aliados como de nossos inimigos. Tornamos-nos a maior e a melhor das Seis Nações. Unidos, fomos imbatíveis! – suas palavras foram recebidas com gritos de alegria. – Trinta Linhagens e Trinta Distritos, essa era a lei. Porém, embriagados pelo poder, encontramos na paz um inimigo mortal. E assim, conhecemos nossa queda na Guerra Civil das Trinta Linhagens!

Ele faz uma pausa e olhou ao seu redor. Até mesmo os protestantes com o rosto pintado de vermelho, agora ouviam atentamente.

– Desunidos, descobrimos o amargo sabor da derrota. Lutamos entre nós, destruindo, em uma geração, o que a grande guerra e mais de vinte gerações construíram e conquistaram.

– Apenas a um passo do abismo, foi que recobramos nossos sentidos. Quando nossa República foi finalmente formada, apenas nove distritos ainda estavam sobre nosso controle. Nossos inimigos nos davam por vencidos. – o Doge faz mais uma pequena pausa. Dessa vez dramática. – Separados, caímos! Entretanto, novamente unidos, reconquistamos, pagando em sangue, cada pedaço de terra

perdida!

O povo clama em sincronia o nome "Caltos!".

– Nove se tornaram vinte e três. E hoje nós reconstruímos outro pedaço dilapidado de nossa História. Atualmente, a Linhagem de Hysku nos traz mais um dos distritos perdidos para dentro do abraço de nossa República! – ele abriu os braços. – Cidadãos de Basília! Filhos de Caltos! Dêem as boas vindas ao Paramor de Chatallary! Seu novo Senador, Warion Prime Hysku!

Kalli sorriu com orgulho quando seu pai se levantou. Era como se todo o mundo olhasse para ele. Clamando por ele; amando seu pai como ela o amava. Naquele momento eterno ela se esqueceu do pássaro, da culpa. Correu e abraçou seu pai, seguida por seu irmão e sua mãe. Juntos, naquele momento, Kallissa encontrou uma felicidade que nunca imaginou possível.

 

Uma felicidade, todavia, que estava destinada a não durar.

Capítulo 3

 

A deusa da verdade era magnífica.

 

Nua e de braços abertos, ela sorria para todos. Um sorriso de piedade e conforto.

Seu corpo era branco, feito de um mármore tão puro e polido que parecia cristal. De longe seu corpo aparentava ser coberto por delicadas linhas que, com a proximidade, sumiam e, em seu lugar, emergiam centenas de pequenas esculturas. Juntas essas pequenas esculturas formavam a escultura maior de "Myr".

Individualmente elas pareciam contar uma estória. Sobre obediência, amor e união. Eram famílias de mãos dadas. Quase todas de joelhos. Cada pequena escultura era única, com seus distintos detalhes. Eram agrupados pai e filho, irmão e irmã, noivo e noiva, amigos, e todo tipo de união que se pudesse imaginar.

Uma em particular - mãe e filha abraçadas -, fez kalli transbordar a culpa que carregava. Virou-se para sua mãe. Alysta estava junto a Mars, admirando as pinturas da grande guerra. Seu pai ainda se encontrava dentro de uma área do palácio que era proibida a eles. Salvo raras exceções, apenas senadores podiam ter a honra de falar com o Doge. O salão onde aguardavam Warion retornar era conhecido como o Jardim das Flores de Tinta.

– Mãe, eu quero falar com você. – Kalli pediu, ao se aproximar deles.

– O que aconteceu não importa minha filha.

– Eu não te odeio.

– Eu sei.

– Me perdoa?

– Você seguiu seu coração, não tem nada a ser perdoado.

– Meu primo foi castigado no meu lugar, e meu pai...

– Seu pai estava errado. É fácil obedecer, deixar que os outros ditem para nós o que é certo e o que é errado. Pessoas boas são capazes de fazer coisas terríveis, em nome da obediência. Belos pássaros presos em gaiolas, são apenas um exemplo dessa crueldade despercebida.

– Meu pai me odeia.

– Isso não é verdade.

– Certa ou errada, obediente ou rebelde. Não importa o que eu faça. E quanto mais eu tento, mais ele se afasta de mim.

– O que você lembra de seu avô?

– Nada. Eu ainda não sabia nem falar quando ele morreu.

– Seu avô foi um Paramor muito duro. Reconquistar Chatallary e reclamar a entrada de nossa Linhagem na República era mais que um propósito para ele. – suspirou. - Era uma obsessão que vinha antes de tudo, inclusive de seus filhos.

- Ele falava muito sobre o valor da espada. Forjou seu pai, como um ferreiro forja o metal. Com martelo e fogo. Só que no lugar do martelo, ele tinha a disciplina. Em lugar do fogo, era o calor do combate. Crianças não são espadas. Seu pai nunca lutou por glória. Cada vez que ele entrava em um campo de batalha, cada vez que ele matava, o fazia em busca do amor que seu avô nunca lhe deu.

– Neste caso eu devo me conformar, então. Aceitar que meu pai não me ama.

– Ele a ama sim. Só não aprendeu a demonstrar esse amor.

– Não. É mais que isso. Eu sinto, toda vez que chego a ele, que sou um peso. Sempre que meu pai percebe que eu estou perto, ele muda. Sou um incômodo, um espinho. Ele encobre o que sente sendo polido e gentil, só que isso

só torna tudo mais óbvio. O que ele vê que eu não consigo ver? O que tem de errado comigo, mãe?

- Não tem nada de errado com você, Kallissa, querida. É a mais forte de todos nós. Muitos acreditam que é uma crueldade prender um pássaro. Nenhum deles jamais teve a coragem de abrir uma gaiola. Nós vencemos a guerra, a época das espadas acabou. Não é você que tem que olhar com nossos olhos, mas nós é que temos que aprender a olhar com os seus. Você é nosso futuro, Kalli! Como Paramor, vai ensinar com seu coração o valor das virtudes esquecidas.

– O plano foi meu! – intrometeu-se Mars, com raiva. – Você acha que ela é tão especial, que Alex era tão valente. E a verdade? A verdade não importa? Kalli é burra e Alex está morto.

– Meu filho...

– Seguir o coração é uma estupidez. O coração sempre quer o que não pode ter. – ele se vira para a irmã. – Você reclama do seu lugar, e o meu? Onde eu estou nessa escala? Alex vem primeiro, mesmo hoje, mesmo morto; você em segundo, mesmo errada, mesmo desobediente. E eu? – ele fala sorrindo. – Terceiro de três, sou o primeiro dos últimos.

Alysta vai abraçá–lo, porém Mars corre para longe delas, entrando nas salas desguardadas do palácio. Kallissa vai atrás do irmão.

Não foi uma perseguição longa. Mars se cansava rápido, então, atrás de uma grande porta dupla entreaberta, ela encontrou seu irmão sentado, recuperando o fôlego.

O salão era espaçoso com o teto alto dividido em três partes. Na parte mais alta, subindo dez lances de escadas, ficavam a maioria das cadeiras. Dezesseis ao todo. Na parte mais baixa havia um segundo círculo de cadeiras. Essas apenas a dois lances de escadas. Oito ao todo.

No centro, na parte mais baixa do salão, onde não havia degraus, apenas uma cadeira próxima à parede, deixando o centro livre. Mars estava no ponto mais baixo, sentado na única com encosto e braços.

– O que você esta fazendo? – a irmã perguntou.

– Não sei. Sendo invejoso e melodramático, eu imagino.

Ela ajoelhou-se a seus pés, ficando com seu rosto na altura do dele.

– Eu sempre achei que não se importava com o que os outros pensavam sobre você.

– E não me importo.

– Não?

– Eu deveria ser o próximo Paramor. Sou mais inteligente, mais que todos, mais que nosso pai. "O valor da espada" é uma estupidez. Todas as batalhas são decididas com números. Quem tem o número maior geralmente ganha. Só que você nunca vai ouvir ninguém falar sobre o valor da matemática.

– Não é tão simples.

– Para você não é simples. Para mim, sim. Pode-se fazer um cálculo depois de algumas batalhas que vai dizer quanto vale cada um de nossos soldados comparados ao inimigo. Pode-se dar um valor numérico a cada terreno, adicionando na vantagem e subtraindo na desvantagem... Com a informação certa o cálculo é simples. Eu testei esses números com as batalhas em livros de História. Em oitenta por cento das vezes eu acertei o resultado de cada conflito.

– Por que você nunca me falou isso?

– De que adianta? Quem me ouve? Eu falei pro nosso pai, eu mostrei os números. Ele não entendeu, e ainda riu de mim. Ele, que não conhece o significado dos números primos, falou que eu não sabia nada sobre nada. Não importa quantas vezes eu esteja certo, ninguém me ouve

porque ninguém tem inteligência suficiente para entender do que eu estou falando.

– Errado. Eles não te ouvem porque você coloca tudo como uma competição. É mais importante provar que os outros estão errados do que mostrar o porquê de você estar certo.

– ELES ESTÃO ERRADOS.

– Não importa.

– Como não?

– Tem que escolher um. Ou você os convence fazendo-os acreditar que a idéia é deles, ou você prova que estão errados e os chama de burros. É um, ou outro.

Ele coloca a mão no queixo, pensando de forma dramática.

– Você está certa.

Ela acaricia as orelhas dele.

– Eu também o amo, bobo.

– Eu não falei que te amava.

– Não, você me chamou de burra. Só que tem coisas que você não precisa dizer e todos sabem mesmo assim. Eu sei que você me ama, e você sabe o mesmo de mim.

– Você não é burra. Comparada a mim é. Só que, comparados a mim, todos são burros.

Eles riram. Kallissa olhou para o irmão séria. Mars desviou o olhar.

– Olha pra mim. – ela fala e ele obedece. – Para mim você sempre vem em primeiro lugar.

– Caçador e presa? – ele a convida a brincar.

Ela sorri e acena com a cabeça. Corre para longe dele, escondendo-se atrás das cadeiras do Senado. Mars corre atrás dela tentando tocar em seu pescoço. Quando finalmente consegue, eles tombam juntos ao chão, rindo novamente.

Contudo, desta vez, o riso morre ao percebem seu pai, parado na amurada, observando-os com pesar nos olhos.

– Pai. – Kallissa falou enquanto se levantava. – Nos só...

– Vamos embora. – Ele falou. Sem esperar uma resposta se foi.

 

Basília era dividida pelo Rio das Lágrimas. Um rio amplo, profundo e traiçoeiro, onde nenhum barco ousava navegar. Existiam apenas quatro pontes que ligavam o Sul ao Norte. Todas extremamente bem vigiadas.

Porém não igualmente vigiadas. Aos que vinham do Sul, nenhuma pergunta era feita, enquanto todos os que vinham do Norte eram parados e questionados. Alguns até mesmo revistados.

A carruagem em que estavam corria pelas ruas. Tão logo atravessaram a ponte, sacudir e tremor deixaram claro o estado precário da estrada onde agora se encontravam.

Ao olhar pela janela, Kallissa ficou chocada. Era como entrar em outra cidade. As casas agora eram de madeira, as ruas mais estreitas, e os habitantes usavam roupas simples. Quase todos mestiços, de sangue impuro.

– Essa área da cidade é um lixo! – reclamou Mars.

– Nossa Linhagem vive desse lado da cidade. – explicou Alysta. – Não se preocupe, nossa Vila fica numa área mais próspera.

– Por que nossa Vila não é na parte boa da cidade? – insistiu Mars.

– Essa é a verdadeira cidade. – explicou Warion, irritado. – O comércio, as forjas, os estábulos e noventa por cento de todo o povo.

Aqui se faz o trabalho da colheita dos frutos. Já o outro lado do rio é apenas o lugar onde esses frutos são consumidos.

– Então toda aquela beleza que vimos não era real? – indagou Kallissa.

– É real para quem as têm. – filosofou Mars.

Nas ruas apenas pobreza e miséria. Quando a carruagem parou para esperar uma procissão, a Myr passar, Kalli avistou uma imagem que lhe doeu o coração. Estarrecedora.

Sentada no chão de terra, encostada em uma parede suja, estava uma velha canina. Seu pêlo não era somente mestiço, mas desnudo em pequenos trechos. Coberta de sarnas, expunha seus olhos negros e tristes enterrados em remelas. Mantinha a esquelética mão estendida. A velha encontrou seus olhos, mas antes que Kallissa pudesse fazer algo, eles já estavam novamente em movimento.

– Chegamos! – anunciou Warion, não muito depois.

Ao atravessarem aos muros de sua Vila, foram recebidos com uma grande festa. À sua volta, seus primos, sua família, e os demais puros sangues da Linhagem de Hysku. Sua mãe e Mars foram os primeiros a sair da carruagem. Kallissa segura o braço do seu pai antes que ele o ofereça.

– Pai, eu quero falar com você.

– Agora não é hora.

– Nunca é a hora?

Ele se vira e a encara sério.

– O que você quer, Kalli?

– Eu quero que você me diga o porquê.  

– Não sei do que você esta falando.

– Sabe sim. Está escrito em seus olhos o desconforto que é estar na minha presença. Por que você não admite? Admita que não me ama!

– Você acha que é isso? Que eu não a amo? Tudo é tão simples para você, não minha filha? Uma criança apenas entende o mundo pela ótica do querer.

– Então me diga, pela sua ótica, o que eu fiz para merecer

o seu desprezo?

– Você não fez nada. O erro foi meu.

– Qual erro?

Ele puxa seu braço e sai, deixando–a sozinha.

Tão logo ela colocou os pés do lado de fora, sua tia se pôs em seu caminho para abraçá–la. Tentou ainda alcançar o Paramor, mas agora era seu tio que a impedia.

– Pai!... – grita.

Seu pai não se vira e continua a andar. Qual foi seu erro?

Agora seus primos estavam à sua volta, cheios de entusiasmo e alegria. Perdendo o pai de vista, resignou-se a se apresentar e ser apresentada a todos. A menor de suas primas, a Gigi, não desgrudava de seu braço. Falava, ininterruptamente, sobre tudo que lhe vinha à cabeça. Qual foi o seu erro? Era tudo que ela conseguia pensar durante todo o tempo.

No Jantar Kallissa pensou em falar novamente com seu pai, mas sua mesa era afastada da dos adultos. Horas depois, não sabia o que era mais triste. Se era ela, o tempo todo olhando seu pai, ou ele que não olhava na sua direção nem uma vez se quer.

Quando o jantar finalmente terminou, Gigi a levou para a sala de banhos. Todo o aposento era como uma pequena piscina. Kallissa finalmente cedeu aos insistentes apelos de atenção de sua priminha e brincou com ela na água, fazendo castelos de sabão e ouvindo-a falar sobre príncipes.

Depois, já vestida em seu pijama, foi conduzida ao seu quarto. Deitada em sua nova cama, tentou dormir. O erro foi meu. As quatro palavras de seu pai ecoavam em sua mente, não a deixando pegar no sono. A jovem tinha que falar com ele.

Trocou suas roupas e desceu. A casa estava escura e silenciosa. No caminho encontrou um servo que não tinha

mais que dez anos; ele carregava um aro coberto de chaves. Chamou o menino, mas ele correu assustado.

Sentindo o cheiro de velas queimando, desceu ao primeiro andar. Ao se aproximar ouviu a voz de um estranho.

– A hora de se juntar a nós é agora, quando ninguém espera. Se assinar essa Petição, sua Linhagem será reconhecida nos autos da História como os salvadores do nosso Domínio.

– A quem você representa? – era seu pai agora.

– Minha voz é a voz do povo, contudo, nosso movimento também é conhecido como os Filhos da Liberdade.

Kallissa se aproximou mais ainda.

Estavam numa sala, a que tinha a grande mesa e os mapas. Começou a ouvir melhor. Foi então que viu seu irmão na fresta da porta de serviço olhando para dentro do recinto.

– O que você esta fazendo? – ela sussurra.

– Quer me matar do coração? – Mars falou, se recobrando do susto. – Fala baixo!... Se ele nos descobre aqui, nos mata.

A porta em que estavam dava para a parte de trás da sala. Dela eles podiam ver quem estava lá dentro. Um era seu tio Erion, o outro um malhado desconhecido. Ele tinha o pêlo branco, com bolas negras, que lembrava a Linhagem dos Dáltamas. O pai estava sentado a uma mesa O único de frente para onde eles estavam.

– Um número interessante de demandas. – seu pai falou, sem tirar os olhos do papiro.

– Apenas soluções de senso comum, visando mudar nosso rumo em direção ao abismo. – falou, gesticulando, o estranho.

– "Nunca aumentar as taxas sobre os senhores das casas

mercantes e nossa aristocracia." – seu pai leu do papiro.

– São os ricos que geram nossas riquezas, quanto mais alto eles voarem, mas perto dos céus todos nos estaremos.

– "Reconhecer Myr como a única e verdadeira deusa de Caltos." – Warion continuou a ler.

– A dualidade de nossa existência é simples. Luz e trevas, bem e mal, Myr e os outros. Existe apenas uma verdade. Não reconhecê–la é um crime que praticamos contra nossas almas imortais.

– "Banir os estudos e os colégios de magia, seja qual for o nome atrás do qual eles se escondam."

– As depravações praticadas dentro de seus laboratórios ofendem e corrompem mentes e corpos. Não existem novas verdades. São crianças brincando com um fogo, cujo poder pode destruir a todos nós.

– "Declarar guerra à Nação Império de Uro'kar." – finalizou Warion.

– Nossa existência os ofende, porque enquanto somos a luz, eles adoram a escuridão. Salivam por morte. Pelo sangue que deve ser derramado para acordar o Adormecido Negro. A guerra é inevitável. A escolha que nos resta é saber quem vai ter a vantagem de ser o primeiro a atacar.

Warion levanta os olhos. Por um instante, olha na direção da porta. Kallissa e Mars se escondem.

– Ele nos viu? – perguntou Mars.

– Quieto. – falou ela.

O silêncio perdurava. Ele nos viu. Foi então que seu pai voltou a falar. Alívio.

– Meu irmão, você me introduziu nosso convidado. O que tem a dizer sobre suas demandas?

– Súplicas, meu nobre. – interrompeu o estranho. – Conheço meu lugar como um sangue impuro. Não tenho uma Linhagem como não tenho um sobrenome. Tudo que

tenho é o clamor daqueles esquecidos por nossa República. Minha petição é nossa súplica. A bandeira de nossos valores.

– Súplicas então. Diga-me irmão. O que acha dessas súplicas?

Kallissa arriscou olhar novamente pela fresta da porta. Viu seu tio colocar uma das mãos em seu queixo e suspirar fundo para, por fim, responder.

– Acho que são apenas os desejos d’Os Oito. Eles brincam de fantoches e agora estendem seus cordões aos nossos braços. Querem ver se, puxando os fios certos, nos farão dançar.

– Meu senhor me of... – tentou falar o estranho.

Seu pai bateu na mesa com tamanha força que o som fez doer os ouvidos.

– Cale–se! Fale apenas quando eu lhe dirigir a palavra! – gritou seu pai. Depois se virou novamente para o  irmão Erion. – Diga-me agora: Por que traz o fantoche à minha presença?

– Nossa Linhagem pode prosperar mais fazendo uma aliança com Os Oito. O Senado está dividido. Nenhum dos lados tem poder para passar legislação sem os votos do outro. Sim, nossos interesses sempre se alinharam com os novos distritos, contudo, outros distritos vão ser incorporados, e quando isso acontecer perderemos nosso valor.

Dividir por nove é melhor que dividir por dezesseis ou mais. Além do que, se trocarmos de lado, estaremos no controle do Senado. Podemos adiar ainda mais a entrada de novos distritos. E quando, finalmente, perdermos a maioria, já não importará. Estaremos consolidados como a mais rica de todas as Linhagens. – profetizou Erion.

– Os Oito lutaram por seis anos contra nossa entrada no Senado. Você quer trair aqueles que nos ajudaram a chegar até aqui? – indagou Warion contrariado.

– Aqueles que nos ajudaram, o fizeram com nossos votos contados como seus, e aqueles que se opuseram, apenas o fizeram por achar que nossos votos iriam contra os deles.

"Os votos são nossos, pertencem apenas à Linhagem de Hysku. Minha lealdade está com meu sangue."

– Lealdade? Se eu assinar esse papiro, eu estaria assinando a morte de toda uma geração numa guerra desnecessária. Onde está a lealdade em mandar nossas crianças para campos de batalha?

– Não seja fraco Warion! Foi o sangue de nossas crianças que nos trouxeram até aqui. O que se conquista com sangue, se mantém com sangue.

– Esse é um preço que eu não vou pagar novamente.

– Isso ficou claro quando seus filhos foram proibidos de usar a espada. Não se preocupe, irmão. Meus filhos lutarão pelos seus.

– Eu ouvi o bastante! Saiam daqui os dois!

– Eu vim buscar uma resposta e somente vou sair daqui com uma resposta. – interveio o estranho.

– Saia daqui, antes que eu quebre seu pescoço! – ameaçou Warion, sério.

– Você brinca com fogo, Hysku. – continuou o estanho. – Não aparento ser muito, bem sei, mas não deixe que a humildade do mensageiro engane seus ouvidos para a real importância da mensagem.

"Você está em perigo. Sua Linhagem está em perigo. Quando a faísca da Revolução for acesa, muitos vão queimar, e morrer. Você vai querer estar do lado certo quando esse dia chegar. Melhor derramar tinta hoje que derramar o sangue de seus filhos amanhã."

Warion se levanta abruptamente, jogando a mesa para o lado. O estranho não teve tempo nem de gritar, antes que as duas mãos encontrassem o seu pescoço. Os pés do estranho

se perderam do chão quando seu corpo foi levado às alturas.

Erion não se mexeu. A dois passos de distância apenas olhava seu irmão matar seu convidado.

Kallissa tentou se levantar para entrar na sala, mas seu irmão a segurou pelo ombro.

O estranho estava com a língua para fora, a saliva escorrendo de sua boca. Seu rosto ia ficando inchando. Os olhos pareciam querer saltar e escapar de seu rosto.

– Pai! Pára! Você vai matar ele! – Kalli gritou, entrando na sala.

Porém seu pai não parou.

– Não faz isso, por favor! – suplicou a jovem.

Warion finalmente soltou o estranho que caiu ao chão como fosse um cadáver. Ainda com a língua para fora, tremia. Aos poucos recobrava a consciência. Quando pôde, olhou apavorado para cima.

– Essa é a minha resposta. – informou, gelidamente, Warion.

Tão logo o estranho consegue, engatinha e depois corre para fora da sala. O Paramor olha para Erion.

– A vontade do Paramor é a vontade de todos nós. Vou rezar para que nosso pai, do outro lado do abismo, tenha feito a escolha certa elegendo você, meu irmão.

Com isso ele se retirou, deixando-a sozinha com seu pai.

– Mars, entre aqui agora! – Warion ordenou, olhando ainda para a filha.

Seu irmão entrou na sala, e ao chegar ao seu lado, pegou na mão de Kallissa em busca de apoio.

Warion olhou para eles por um longo tempo antes de falar, e quando falou, tinha seus olhos cheios de lágrimas.

– Meus filhos, brincando como sempre.

– Pai...

– Seu irmão nunca me desobedeceu. Ele tinha a sua idade

Kalli, quando invadimos a Floresta Branca. – suspirou. Sua voz mudou. Estava agora vazia de raiva e cheia de dor.

– Nós fomos emboscados e cercados. Poderíamos ter fugido, entretanto, o custo seria alto. Aquela era a nossa chance de acabar com nossos inimigos de uma vez por todas. Quando eu dei o comando, quando eu falei "fiquem e lutem!", muitos fugiram, mas não seu irmão. Ele jamais me questionou. Vê-lo lutando foi a coisa mais bela e mais terrível que eu pude presenciar em toda a minha vida. Mesmo ferido, Alex continuou a lutar. Somente quando o último dos selvagens caiu, foi que ele se permitiu morrer.

Seu pai chorava. Ela tentou se aproximar, mas ele deu um passo atrás, se afastando.

– Desculpe-me, pai. Por tudo, pelo pássaro que eu soltei...

– Que você matou.

– Não!

– Um pássaro praticamente nascido numa gaiola não sobrevive fora dela. Sua ave está morta, Kalli.

– Eu te falei. – falou Mars.

– Não. Ela está viva!

– Pássaros que não sabem matar quando desprotegidos, são sempre mortos.

– Você não sabe disso, mas ele voou. Ele pode estar vivo.

– Ele não sabe matar.

– Ele aprende.

– Você nunca aprendeu.

– Eu?!

– Da mesma maneira que você matou seu pássaro, eu matei todos os meus filhos. Um, por ter lhe dado uma espada, e os outros dois por tê-la tirado de suas mãos.

– O que você quer dizer com isso?

– Esse é o grande segredo. Meu grande erro. Criei meus filhos como pássaros em gaiolas.

Warion baixou a cabeça.

– Enquanto os filhos dos meus soldados matam e morrem em nome de nossa Linhagem, meus filhos brincam como brincaram hoje de caçador e presa nas cadeiras do Senado.

– Existem outras maneiras de liderar. – opinou Mars, irritado.

– Quem vai te seguir Mars?

– Eles vão seguir o Paramor, seja eu ou minha irmã. Assim está escrito.

– Vocês não são dignos de serem Paramor.

– Desde quando? – perguntou Kallissa.

– O que importa?

– Importa para mim.

– Você sabe desde quando.

– Não foi só você quem perdeu Alex. Nós o perdemos também. Se eu pudesse trocar de lugar com ele eu trocaria; daria a você o único digno de ser seu Paramor. Mas eu não posso. Diz então o que eu tenho que fazer para provar que eu também tenho algum valor!

– Agora é tarde.

– Me dá uma chance, pai! Uma única chance.

– Eu achei que ia ser diferente aqui, mas nunca é diferente. Nosso mundo é um mundo de feras. Não existe lugar para inocência.

– Eu não sou inocente.

– Como eu posso protegê-los, quando não pude proteger a seu irmão?

– Nós não somos covardes, pai! Quando a hora chegar, saberemos lutar.

– Vão lutar e morrer. Alex era mais forte que vocês dois juntos e mesmo assim morreu. Sem mim, vocês seriam devorados sem piedade, sem nenhuma chance.

– Eu vou provar a você, pai. Vou provar que não sou

mais uma criança!

– Eu não deveria ter trazido vocês comigo. Amanhã começo os preparativos para mandá-los de volta. Nunca estarão seguros aqui.

– Você não pode fazer isso!...

– Um dia me agradecerá. Existem coisas piores que viver em gaiolas.

– Pai...

– Chega, vão para os seus quartos.

– Não.

– Será que não entendem? Eu amo vocês! É justamente essa a minha fraqueza. O erro foi meu, bem sei. Mas sua presença aqui serve apenas para pôr em risco tudo o que nossa Linhagem conquistou.

– Não diga isso, por favor.

– Você queria a verdade. Essa é a verdade. Agora subam para os seus quartos.

Mars a puxa pela mão. Amanhã. Eu falo com ele amanhã.


Em sua cama, a noite passava sem que conseguisse dormir. Kalli estava obcecada em encontrar as palavras certas que fossem capazes de convencer seu pai a não lhes mandar de volta. Pensava também no pássaro. Ele está errado. O pássaro está vivo.

Quando o sono finalmente a alcançou, adormeceu.

Foi então que um grito a trouxe de volta. Acordou com dificuldade, ainda era noite. Continuava exausta. Outro grito. Ou seria o mesmo? Esforçava-se para despertar, buscando sua consciência. Era como arrastar um cadáver escada acima.

Por que estou pensando em cadáveres?

Um novo grito. O de uma criança agora. Foi o que finalmente a despertou por completo.

Mars! Kallissa correu para o quarto do irmão. Onde era?

Abriu a porta do quarto em frente ao seu e rezou para ser o quarto certo. Quando entrou, encontrou seu irmão olhando pela janela. Ele se vira por um momento e fala, com a casualidade de quem diz "bom dia."

– A cidade está em chamas.

Kallissa vai até a janela. Do lado de fora o que via era inacreditável. Quase todas as casas ao redor de sua Vila estavam em chamas!

Não era um fogo comum; no lugar do vermelho esse fogo era púrpuro!

A cor púrpura escura se alastrava com uma velocidade irreal. Em um piscar de olhos todas as casas ao redor estavam em chamas.

O muro que dividia sua Vila do resto das casas era muito alto para ela ver a rua. Mas ouviam os urros de agonia e dor. Sentiam o cheiro de pêlos queimados.

Logo era o muro de sua Vila que estava em chamas. O fogo se alastrava por toda circunferência. Então ele vem em sua direção, se arrastando pelo chão como se estivesse vivo!...

Kallissa puxa seu irmão da janela que, em segundos, estava em chamas, espalhando-se rápido pelos tetos e paredes.

– Corre! – ela grita para o irmão.

Puxa-o pela mão porta à fora. Mal saem do quarto este é engolido pelo monstro incandescente.

– Pai! Mãe! – Kallissa grita, com toda sua força.

Tudo que ela ouvia de volta era o estalar da madeira e os gritos de socorro de seus primos vindos do andar de baixo. Gigi!. Ela pensou horrorizada quando se moveu para descer as escadas. Mars a impediu.

– Não dá tempo! – ele grita.

Kallissa olha para o irmão, mortificada pelo pavor.

– Nossos pais estão no andar de cima! Não temos como salvar a todos!

Ele está certo, Gaia me proteja! Ele está certo!

Juntos, correm para o terceiro andar. A essa altura tudo a sua volta está em chamas. Os gritos de socorro de seus primos são agora urros de agonia e dor.

A fumaça tornava a respiração dolorosa e difícil. Cada degrau que pisavam cedia sob seus pés; mal chegaram ao terceiro andar e a escada inteira desmorona. O quarto principal ficava em frente, com outros dois quartos de cada lado, todos fechados, todos com pessoas dentro, gritando por socorro e batendo nas portas. Eles estão trancados!

– Pai! – Mars gritou à porta do quarto principal.

– Mars?! Sua irmã, onde esta sua irmã?! – perguntou Warion.

– Estou aqui, pai! – ela respondeu tossindo.

– Saiam da frente da porta!

Eles se afastaram. Ouviram o estrondar de seu pai batendo contra a porta.

– Ele não vai conseguir, a porta é muito grossa! – desesperou-se Mars. – Nós temos que ajudar!

O rapaz olhou à sua volta. Na parede, um escudo com duas maças que já estava em chamas. Mars tira sua camisa e entrega à irmã.

– Eu não alcanço!

Usando a camisa para proteger suas mãos, ela puxa o escudo da parede. Tudo cai ao chão. Pega uma das maças e bate com ela na porta. A primeira batida apenas machuca a madeira, já a segunda tira lascas. Mars pega a segunda maça. Juntos eles conseguem rachar a porta.

– Para trás! – Warion grita com autoridade.

Mal eles obedecem, seu pai atravessa a porta caindo ao

chão com o braço direito quebrado. Sua mãe vem logo atrás. O quarto deles está totalmente em chamas.

Abraçam-se e buscam conforto, porém estão cercados. Fogo por todo lado.

– Eu não quero morrer queimado! – Mars suplica, quase chorando.

O teto começa a desabar sobre eles. Warion empurra os filhos para longe, quando uma viga despenca na sua direção. O chão desaba.

O peso da viga abre caminho do terceiro ao segundo andar. Kallissa sente suas costas batendo no chão. Imagina ter batido com a cabeça quando sente sangue cobrindo seus olhos. A vontade de voltar a dormir retorna, maior que nunca em sua vida. Se fechar os olhos, a dor vai passar. Se fechar os olhos o escuro virá rápido para cobri-la e proejá-la. Tudo que ela tinha que fazer era deixar acontecer.

Não. Eles precisam de mim!

De algum modo, se levanta. Seu irmão está desacordado ao seu lado.

Do outro lado, a viga encobre o corpo esmagado de seu pai. Não! Por favor, não! Ele estava morto! Sua mãe ainda encontrava-se viva... Seus olhos se cruzaram.

– Pega seu irmão e foge!– sua mãe ordenou, chorando.

Uma viga e outros entulhos as separavam como uma grade. O fogo se aproximava rápido.

– Não! – Kallissa teimou. 

Ela pegava os pedaços de madeira. Mesmo aqueles em chamas, todos que ela conseguia mover, contudo, já era tarde para sua mãe que agora gritava de dor.

Berrava em agonia enquanto ela continuava a tirar os pedaços de madeira que separavam as duas.

Nunca em sua vida sentira uma agonia igual a que experimentava ao ouvir sua mãe morrendo aos gritos. Nem

mesmo quando o fogo envolveu suas mãos, quando foi então sua vez de gritar com suas mãos em chamas, ela esqueceu sua mãe, esqueceu onde estava. Tudo à sua volta deixou de existir, somente a tortura irracional. Fogo! Desabou ao chão com o fogo se alastrando por sua roupa. Tudo que ela queria era a morte. Deixe-me morrer com eles!  Foi a última coisa que pensou antes da escuridão lhe encobrir.

Antes de perder a consciência de vez, no entanto, entendeu que a escuridão não era a morte. Seu irmão havia coberto-a com um tapete.

– Eu vou te salvar!... – prometeu Mars.

 

E essa foi a última frase que ouviu antes de perder totalmente a consciência.


























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